A LOUCURA DA IDOLATRIA

 

A menção da Babilônia, no capítulo 39 de Isaías, leva o profeta ao futuro mais distante, e a partir do cap. 40 ele começa a tratar do exílio que Israel sofrerá naquele país. Deus, o único Criador (Si 40:25-28), levantará um conquistador militar (Sl 41:2-5) que libertará Seu povo (Is 41:15-16).

Mas Isaías percebe um problema maior que o cativeiro político: no exílio, Israel entrará em contato com o mundo das nações pagãs, idólatras (Is 40:19-20; 41:7). Como vai reagir? Será seduzido pela lógica da história? "Se Babilônia venceu Jerusalém, logo Bel (O deus da Babilônia) é mais forte que o Senhor. Está na hora de mudar de religião. Precisamos de uma fé que funciona mesmo, de um deus vencedor. Vamos seguir Bel".

O capítulo 44 segue um esboço simétrico, um tipo de estrutura bastante comum na poesia hebraica:

· 0 que Deus vai fazer (vs. 1-5)

· 0 único Deus real (V5. 6-8)

· A loucura da idolatria (vs. 9-20)

· 0 único Deus real (vs. 21-23)

· 0 que Deus vai fazer (vs. 24-28)

1. Os três nomes de Israel (vs. 1-2)

Neste apelo inicial, Deus usa três nomes diferentes para chamar a atenção do Seu povo, nomes que podem se aplicar a nós também:

a. Jacó - fala da nossa condição natural como pecadores. Significa ~nganador, aquele que pega no pé" (Gn 27:36), foi o nome que recebeu quando nasceu (Gn 25:26). Aqui, Deus acabou de falar do pecado do povo(Is 43:22-28).

b. Israel - fala também do perdão (Is 43:25). Quando Jacó nasceu, Deus, na Sua graça, já o escolheu para ser portador da bênção de Abraão (Gn 25:23; Rm 9:11-12). Note como Deus aqui duas vezes lembra a realidade desta escolha, a qual transformou Jacó em Israel, "lutador com Deus" (Gn 32:28), abençoado por Deus (Gn 35:9-12). Este nome, então, fala da nossa condição de escolhidos por Deus, alvos da Sua graça.

c. Jesurum - o terceiro nome é muito especial, é traduzido "amado" na versão atualizada, mas o nome é ligado com a palavra hebraica "reto". Aparece também em Dt 33:5,26, e fala da nossa condição ideal, já visível a Deus, de como seremos quando Ele tiver levado a bom termo a obra da nossa salvação.

· Desgraça, graça e glória: Deus sabe a nossa história !

2. A promessa do Espírito (vs. 3-5)

Nesta profecia de Pentecostes, notemos três pontos: 

a. A situação anterior era de sede e seca.

(v.3a) - lembramos como os discípulos "perseveravam unânimes em oração" (At 1:14):

e como, também, os grandes avivamentos que têm despertado a Igreja ao longo da sua história sempre vêm precedidos por movimentos de oração.

b. A água é figura muito comum do Espírito na Bíblia - fala de vida, satisfação de sede, e também de purificação. A abundância da bênção é frisada pela repetição do verbo "derramarei ": superabundância, até, pois quem tem sede só quer um copinho, não uma inundação !

c. A consequência da vinda do Espírito é crescimento (v.4) e expansão (v.5) - o v.5 parece profetizar a entrada de gentios na igreja, pois os judeus não iam fazer tanto caso de usar o nome de Israel (cf 55:5; 65:1; El 2:11-12,19)

· Sede, satisfação, transbordamento:

qual descreve você? Se for genuíno, qualquer um destes sentimentos é melhor que a indiferença.

 

 

II – O Único Deus Real

 

A lista de nomes divinos no começo do v.6 nos faz sentir a seriedade dessa proclamação majestosa. Aqui se encontram alguns dos temas centrais desta parte do livro de Isaías.

1. Não há outro Deus

Deus é o único, eterno, o primeiro e o último (v.6; Is 41:4; 48:12). "Não há outro" é o grande tema do capítulo seguinte (Is 45:5-6,14,18,21-22). O grande pecado da Babilônia era considerar-se como Deus: veja a linguagem que ela usa (Is 47:8,10). Só Ele é a Rocha; os ídolos são areia movediça.

2. Só Deus declara o futuro

Os babilônios confiavam muito na astrologia para predizer o futuro: eram adeptos do horóscopo mensal (Is 47:13). Isaías trata com desprezo essa praxe (Is 41:22-27; 43:9; 48:14), mostrando que cabe somente a Deus conhecer o futuro, pois Ele é quem o determina (Is 42:9; 46:10; 48:3-6). E ele escreveu cem anos antes do exílio!

3. "Vós sois as minhas testemunhas" (v.8)

Quem tem o privilégio de conhecer o único Deus, tem também a responsabilidade de proclamá-lo (Is 43:10-12). É a lógica de Paulo em Rm 10:11-14.

 

 

III – A Loucura da Idolatria

 

A luz desta visão da realidade de Deus estamos prontos a entender a idolatria.

1. Não prestam, nem ídolos nem idólatras (vs. 9-11)

A colocação inicial é bem taxativa: Ídolos são

"de nenhum préstimo". Samuel já advertiu:

"Não vos desvieis, pois seguiríeis coisas vãs,

que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar, porque vaidade são" (1 Sm 12:21). Jeremias condenou: "O meu povo trocou a Sua glória por aquilo que é de nenhum proveito" (Jr 2:11). Habacuque pergunta: 'Que aproveita o ídolo, visto que o seu artífice o esculpiu?" (Hc 2:18>. E Paulo conclui: "Sabemos que O ídolo, de si mesmo, nada é no mundo" (1 Co 8:4).

Pior ainda: os adeptos dos idolos são iguais aos próprios idolos (SI 135:18). Vela a alternação no v.9 entre 'eles" (os idólatras) e "elas" (as imagens). Nas coisas do mundo diz-se que a união faz a força; mas a união na idolatria apenas produz a união na derrota vergonhosa (v.1l).

2. As ironias da idolatria (vs. 12.14)

Como se pode buscar força num ídolo - que é forjado por um homem fraco (v.12)? Como se pode admirar a beleza de um ídolo - desenhado por um artista, à semelhança de um homem (v.13)? Deus fez o homem à Sua imagem, mas agora a ordem se inverte! E não só o desenho, mas também a matéria prima, está à mercê do homem (v.14).

3. Lenha ou libertador? (vs. 15-20)

A ironia se intensifica agora. O mesmo homem usa o mesmo pedaço de madeira para dois fins totalmente contrários: como é que pode?! E ainda diz: "Contemplo a luz " (v 16) quando está nas trevas! O deus é feito "do resto" (v.1 7), do que sobrou do forno!

· "Tu és o meu Deus" (v.1 7) quer dizer "Tu és o Deus que pertence a mim"? Não deve significar "Tu és o Deus a quem pertenço" (At 27.23)?

4 .0 porquê da idolatria

Como explicar um comportamento tão estúpido, que troca os pastos verdejantes de Deus pelas cinzas de um campo queimado (v.20)? Só pode haver uma razão: o ser humano precisa de Deus. Se não conhece, ou não quer o Deus verdadeiro, fatalmente inventará um deus falso. Neste capítulo se percebem três necessidades fundamentais que levam o homem a buscar um deus.

a. "Livra-me" (v. 17) - precisa de alguém que o livre de suas angústias, resolva os seus problemas, lhe dê uma segurança.

b. "...e se prostra diante dele,... e se ajoelha (v.15) - precisa de algo maior, que lhe dê uma razão de viver, uma causa à qual se possa dedicar.

c- "Que esse anuncie as coisas futuras"(v.7): precisa de orientação lace ao desconhecido do futuro, para acertar nas decisões que tem de tomar.

Hoje, enfrentamos a mesma tentação que Israel enfrentava no cativeiro. As vezes parece que a nossa fé no Senhor não faz diferença, e começamos a buscar um outro deus. O nosso ídolo pode não ser uma imagem esculpida. Para alguns, é o dinheiro que resolve; para outros, o poder político: 'Ah, eu conheço um vereador que pode dar um leito nisso". Outros ficam cativados com o poder da ciência, ou com a beleza das artes, e buscam na fama dessas coisas a sua satisfação ou razão de viver. E quantos não dão uma olhada no horóscopo no jornal, "só para pegar uma dica".

· Segurança, satisfação, sabedoria: será que reconhecemos, de verdade, que sem o Senhor nunca as encontraremos?

 

 

IV – O Único Deus Real : O Nosso Deus ( Is 44:21 – 23 )

Não um deus que nós formemos, mas Aquele que nos formou (v.21). E não só nos formou, mas nos remiu, desfez os nossos pecados (v.22). E ainda quer uma relação pessoal conosco ("torna-te para mim ", v.22) . Eis o motivo da alegria, eis a verdadeira razão de ser, de toda a criação (v.23)!

 

 

V – Os Planos de Deus se Cumprirão

Podemos ter plena certeza disso. Por que? Nosso Deus (v.24a) é o único Deus Criador (v.24b), que governa o universo. Nenhuma sabedoria ou encantamento humano pode resisti-lo (v.25).

E quais são os Seus planos? Restauração de Jerusalém, da terra (v.26) e do templo (v.28), enfim restauração total. E Ele lá sabe quem o fará (v.28), e como (v.27): Ciro, rei da Pérsia, tomou a cidade da Babilônia desviando as águas do rio Eufrates que passava pelo meio da cidade, e mandando seu exército entrar pelo leito seco do rio. E o mesmo Ciro logo deu as ordens para a reconstrução do Templo (Ed 1:1-4).

· "Acaso para o Senhor há cousa demasiadamente difícil?" (Gn 18:14)

Segurança, satisfação, sabedoria: será que reconhecemos, de verdade, que sem o Senhor nunca as encontraremos ?

Francisco das C. M.


voltar à página anterior