A Igreja e o Supermercado
(Gildásio Reis – Reportagem escrita no Brasil Presbiteriano – Dezembro/97)
Supermercado! Lugar onde diversos produtos são vendidos para suprir a procura de uma clientela. Por analogia, podemos dizer que existe em nossos dias um cristianismo que está sempre procurando conquistar também a sua clientela.
Habilidade gerencial , técnica de marketing e relações públicas parecem ser a obsessão de muitos pastores que estão no mercado evangélico.
A Igreja que participa deste mercado, para se manter viva precisa passar por adaptações constantes. No mercado, com sabemos, o cliente tem sempre razão e como o gosto os clientes muda rapidamente, a mentalidade mercantil da Igreja força que ela se adapte aos novos sabores dos novos ventos. Daí, vamos entender porque tantos modismos no meio evangélico e tantos novos ventos de doutrina: uma necessidade de agradar o cristão como se fosse um cliente.
A Igreja moderna está sempre procurando se adequar ao que a clientela exige. Como afirmou o pastor Rubens Amorese: "No mercado religioso não é Deus quem escolhe, mas nós é que o selecionamos na prateleira."
Essa atitude de adaptação ao mercado tem vendido uma fé barata. E pior, a concorrência é que tem determinado o preço. Quanto mais pastores disputam os mesmos "clientes"(crentes), menos exigentes vão se tornando os sermões. No balcão das liquidações, produtos religiosos são oferecidos a um custo cada vez mais baixo. O importante é manter a casa cheia.
Assim, se a necessidade da vizinhança é uma religião "água com açúcar", proclama-se um evangelho bem ralinho. Se a tendência é tremer, vamos tremer, se é cair, então o que estamos esperando? Se os jovens gostam de música bem ritmada e pouco compromisso, o caminho então é o pastor botar um boné na cabeça e transformar o culto num sambão evangélico ou num "Programa Livre". Afinal, o pastor precisa estar constantemente atualizado e procurar estar na "crista da onda", oferecendo aos seus membros o que há de melhor e mais moderno.
Na religião de supermercado, se um membro não gosta de jeito de um pastor pregar, atravessa a rua, e encontra no "mercado" um pregador conforme seu gosto. Se a mensagem do pastor começa a lhe "pegar no pé", o melhor a fazer é levantar-se e ir assistir o culto em outra Igreja que não exige tanto do seu caráter, mas que em lugar disso, proporciona-lhe alguns arrepios.
Como disse John Machartur Júnior: "Muitos crentes hoje não suportariam, por dois ou três domingos consecutivos, a pregação da sã doutrina bíblica, que confronta seus erros doutrinários, que os refuta, que traz convicção de pecado sobre o povo ou que os exorta à obediência a Deus. Eles substituíram esse pregador por outros que alimentassem seus desejos e lhes fizessem cócegas nos ouvidos". É verdade, muitos crentes hoje querem algo sensacionalista, que produza entretenimento, que lhes massageie o ego. Por causa disso muitos pregadores, hoje, temem ofender as pessoas. Então pregam uma mensagem insípida, o que se torna uma ofensa a Deus.
Creio ser conhecida dos irmãos, a maneira como Paulo confrontou Félix e Drusila (Atos 24: 24 a 27), os quais tinham uma vida bem devassa. Paulo estava diante de Félix como um prisioneiro diante de um juiz. Félix tinha o poder de colocar Paulo em liberdade. Contudo, o apóstolo não tentou agradá-lo ou lisonjeá-lo. Paulo apenas se preocupou em pregar a verdade para este homem, a quem ele via carente da salvação. Como tem sido diferente em nossos dias!
Para a religião de supermercado, interessa manter sempre a prateleira cheia de ofertas para que você possa escolher à vontade, e com promessa de satisfação garantida, ou então o seu dinheiro de volta.
O Grande Supermercado
(Carlos Eduardo Bastos Marcos – Reportagem do Brasil Presbiteriano – Dezembro/97)
Uma das mais marcantes características dos tempos que vivemos é a quantidade de opções às quais somos apresentados diariamente, opções a respeito de tudo: hoje se escolhe da marca do sabonete ao presidente da república, do sabor do sorvete ao programa noturno de televisão. É assim que se instala nos cidadãos pós-modernos a pluralidade de opções, que surge como uma necessidade básica inconsciente de optar, compulsivamente, pelo melhor produto, necessidade esta alimentada pela mídia e sustentada pela sociedade de mercado capitalista. Afinal, "Você decide"...
Ocorre que nem mesmo os cristãos escapam do quadro acima descrito, visto que encontraram à sua escolha várias propostas de cristianismo diante das quais podem optar; tem cristianismo tradicional (em bom estado), usado, avivado, renovado, recondicionado, revisto e atualizado, tem liturgia dançante e imóvel; tem música de coral e conjunto de "white trash metal rock’n roll", e assim a coisa vai...
Assim, vemos estar instituído e oficializado o grande supermercado evangélico-eclesiástico, no qual se pode apanhar na prateleira aquilo que mais agrade o gospel consumidor, com a grande vantagem de poder mudar de acordo com as variações de humor e disposição do público: hoje aqui, amanhã acolá, ao sabor dos ventos (de doutrina).
Penso que falta a este cenário farto de opções eclesiásticas uma palavra que causa arrepios em muita gente: compromisso. Compromisso sério e perene firmado com o Senhor Jesus Cristo, pois é só formando tal pacto que superaremos o desafio das pluralidades para fazermos a opção única e eterna com Ele, pois o único compromisso que salva, liberta, santifica e doa a vida eterna é a entrega pessoal a Jesus, e não com qualquer um dos modelos religiosos ou com uma das grifes denominacionais.
Portanto, aqueles que desejam realmente trilhar o caminho do discipulado autêntico devem lembrar-se, sempre, que a única escolha segura e verdadeira na era do descartável é o estabelecimento individual e pessoal com o Senhor Jesus, relacionamento que nos faz andar em novidade de vida, consoante o ensinamento do apóstolo Paulo: "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já, passaram; eis que tudo se fez novo."(II Coríntios 5: 17)
Se este compromisso já faz parte da nossa experiência de vida, saberemos transitar nos caminhos pós-modernos firmados na opção que já fizemos, qual seja, a de estarmos firmados na rocha, embasados numa experiência pessoal com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.